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A democracia está sendo silenciada aos poucos? Os sinais de alerta que o Brasil precisa discutir

Foto do escritor: Roberto Romano Estebanez Silva
Roberto Romano Estebanez Silva
há 2 dias
5 min de leitura

Entre a liberdade de expressão, as decisões judiciais e as lembranças de um passado autoritário, o país enfrenta um debate fundamental: como proteger a democracia sem permitir que o poder se torne ilimitado?



Por Roberto Romano Estebanez Silva


A democracia não desaparece necessariamente de um dia para o outro. Em determinadas circunstâncias, seus sinais de enfraquecimento podem surgir de maneira gradual, por meio de medidas que parecem isoladas, justificadas por situações excepcionais ou distantes da vida cotidiana da população. É justamente por isso que o debate sobre a liberdade política merece atenção especial durante um período eleitoral.


O Brasil vive um ambiente de intensa polarização política, marcado por controvérsias sobre a atuação das instituições, a liberdade de expressão nas redes sociais e os limites do poder estatal. Nesse cenário, uma pergunta precisa ser feita: a sociedade está conseguindo distinguir a defesa legítima da democracia de medidas que possam restringir excessivamente o exercício das liberdades individuais?


A questão não deve ser reduzida a uma disputa entre direita e esquerda. A liberdade de expressão, o direito à defesa, a igualdade perante a lei e a possibilidade de criticar os governantes são garantias que precisam proteger todos os cidadãos, independentemente de suas convicções políticas.


Quando a história deixa de ser apenas o passado


A história brasileira oferece advertências importantes. Durante a ditadura militar, instaurada em 1964, o país conheceu a censura, a perseguição de opositores, as prisões arbitrárias, a tortura e o exílio de brasileiros que se opunham ao regime.


Artistas, jornalistas, professores, estudantes, parlamentares e militantes políticos tiveram suas vidas profundamente afetadas pela repressão. Muitos foram impedidos de exercer suas atividades, enquanto outros precisaram deixar o país para preservar a própria segurança.


Esses acontecimentos não podem ser esquecidos nem relativizados. A Comissão Nacional da Verdade investigou graves violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988, contribuindo para documentar os abusos cometidos durante o período autoritário.

A comparação com o presente, entretanto, exige responsabilidade. O Brasil de hoje não pode ser automaticamente equiparado ao regime autoritário do passado. A existência de eleições, instituições constitucionais, imprensa independente e mecanismos de contestação faz parte de uma realidade institucional distinta.


Isso não significa que a democracia esteja imune a riscos. Significa que a análise precisa identificar, com base em fatos, onde as instituições estão funcionando, onde existem possíveis abusos e quais medidas precisam ser corrigidas.


A memória histórica não serve para transformar toda decisão judicial em perseguição política. Serve para lembrar que a proteção dos direitos fundamentais deve permanecer uma preocupação permanente da sociedade.


A repressão pode assumir formas menos visíveis?


Quando se fala em repressão política, a imagem mais comum é a de censores, prisões, proibições explícitas e agentes do Estado impedindo manifestações públicas. Entretanto, restrições à liberdade também podem ser discutidas em contextos nos quais determinadas medidas são justificadas pela segurança institucional, pelo cumprimento da lei ou pelo combate à desinformação.


É nesse ponto que a sociedade precisa manter os olhos abertos.


Uma ordem de retirada de conteúdo pode ser legítima quando busca impedir uma ilegalidade e respeita os requisitos legais. Também pode suscitar questionamentos quando sua fundamentação é insuficiente, seu alcance é desproporcional ou não existem mecanismos efetivos de contestação.


Isso vale para investigações contra políticos. O exercício de um mandato não torna ninguém imune à lei, mas a existência de uma investigação tampouco autoriza que alguém seja considerado culpado antes do devido processo legal.


O problema democrático surge quando o poder deixa de aceitar limites, quando decisões públicas não podem ser questionadas de maneira efetiva ou quando as regras passam a ser aplicadas de maneira desigual entre adversários políticos.


Por isso, algumas perguntas são indispensáveis: qual foi a fundamentação de determinada decisão? Foram respeitados o direito de defesa e o contraditório? Existe proporcionalidade entre a medida adotada e a conduta investigada? Os mesmos critérios seriam aplicados a representantes de diferentes correntes políticas?

Essas perguntas não enfraquecem a democracia. Ao contrário, ajudam a preservá-la.


Afinal, qual é o caminho para a libertação da democracia?


A libertação da democracia não significa libertar pessoas de toda responsabilidade jurídica, eliminar instituições de controle ou conceder poderes ilimitados a qualquer governante. Significa garantir que nenhuma autoridade esteja acima da Constituição e que nenhum cidadão perca suas garantias fundamentais por causa de suas opiniões políticas.

Esse caminho depende de algumas condições essenciais.


Instituições independentes e responsáveis. O Judiciário, o Legislativo e o Executivo precisam exercer suas atribuições dentro dos limites constitucionais, sujeitos aos mecanismos legais de fiscalização e responsabilização.


Liberdade de imprensa e acesso à informação. Jornalistas precisam investigar, questionar e informar sem intimidação. Ao mesmo tempo, devem apurar os fatos, ouvir os envolvidos e corrigir eventuais erros. Uma imprensa responsável oferece elementos para que o cidadão forme seu próprio julgamento.


Educação política e memória histórica. Conhecer a Constituição, compreender os direitos fundamentais e estudar os períodos autoritários ajuda a população a reconhecer abusos, independentemente de quem os pratique.


Respeito ao contraditório e à ampla defesa. Acusações precisam ser examinadas com provas, procedimentos legais e possibilidade de contestação. A Justiça não deve ser instrumento de vingança política, assim como o discurso de perseguição não deve servir para impedir a responsabilização por eventuais crimes.


Participação popular. Votar conscientemente, cobrar representantes, acompanhar decisões públicas, participar de organizações civis e denunciar violações são formas de impedir que a política seja monopolizada por grupos de poder.


A democracia também precisa de cidadãos dispostos a questionar os próprios aliados. Não existe compromisso verdadeiro com a liberdade quando se exige transparência dos adversários, mas se aceita o silêncio diante dos erros de quem está do nosso lado.


A democracia não se sustenta apenas nas urnas

O processo eleitoral é indispensável, mas não representa a totalidade da democracia. Entre uma eleição e outra, a sociedade precisa conservar o direito de fiscalizar os governantes, criticar decisões, defender minorias, organizar manifestações pacíficas e exigir explicações das autoridades.


A Constituição Federal de 1988 assegura, entre outros direitos fundamentais, a liberdade de manifestação do pensamento, a expressão intelectual e de comunicação e o acesso à informação. Essas garantias devem ser interpretadas em conjunto com os demais direitos constitucionais e com as responsabilidades previstas em lei.


O desafio brasileiro consiste em proteger as instituições sem transformá-las em poderes imunes à crítica; combater crimes sem eliminar garantias fundamentais; e enfrentar a desinformação sem estabelecer restrições arbitrárias ao debate público.

A verdadeira defesa da democracia não pode depender da identidade ideológica de quem governa, julga, acusa ou é acusado.


Se há excessos, eles precisam ser demonstrados e corrigidos pelos meios legais. Se há violações de direitos, precisam ser investigadas. Se há acusações sem provas, elas não podem ser convertidas em verdades por conveniência política.


O silêncio diante de possíveis abusos é perigoso. Mas também é perigoso transformar suspeitas em certezas sem investigação e tratar toda decisão desfavorável como prova de perseguição.


A liberdade democrática exige coragem para questionar e honestidade para reconhecer os fatos, mesmo quando eles contrariam nossas preferências.


A pergunta que fica para o Brasil não é apenas quem vencerá as eleições, mas que democracia permanecerá depois delas. Uma democracia na qual todos possam falar, discordar, fiscalizar e defender seus direitos ou uma sociedade na qual a liberdade seja tratada como concessão de quem detém o poder?


A resposta não pertence exclusivamente aos políticos, aos tribunais ou aos partidos. Pertence também a cada cidadão que se recusa a renunciar ao pensamento crítico.

Porque a democracia não se enfraquece apenas quando alguém tenta destrui-la. Ela também se enfraquece quando a sociedade deixa de perceber a importância de defendê-la.

 
 
 

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